"Diz-se que nascemos num suspiro do mundo. Sendo assim, nasceste num solavanco de suspirações sincopadas. E é por isso que não te resolves a recambiar os teus sonhos à proveniência, fajutos e hirsutos que são, sempre luzidiamente escorregadios. Insuportáveis. É, portanto, um resolver de chamas que procuras; não te posso ajudar. Já não posso fazer coisa alguma. Estou disperso em moléculas e átomos de cândidas tristezas". "Cantas e desvias o olhar. Tens medo das nuvens? Tens medo de desejar ser um estar invisível?". "Sim. Talvez tenha apenas medo. Medo por si, daquele que olha o espelho e é acusado de suicídio por negligência". "Então, estás a caminho da loucura". "Estou. Mas é preciso ser doido para ficar louco num mundo tão insano e descarnado". "É capaz. Mas tu lês e sentes e pensas e cogitas e criticas e choras-lágrima-no-canto-do-olhinho, sem que te afastes do caminhobsolescente (gosto tanto desta palavra, deste justapor de semânticas orgásmicas".
Sim. Talvez, noutra vida, pudesse ter sido presidente da democracia do reino republicano de trás-os-mares (como a minha bisavó desejava, no seio do seu âmbito rotundo e encorpado). Mas aqui, neste trovejar de desesperos, estou à espera do autocarro. Chove. Olhos pálidos pintam Rembrandt na paragem, bafejada pela humidade nocturna. Vislumbro a minha vida paralela, uma década, talvez mil, felicidade alcatifada e embutida em arranha-céus de corte futurista, uma velocidade incerta, eis que o autocarro range a sua chegada, justificando, modestamente, um atraso que não é da sua conta. Mais uma vida contada em silêncios, vazios cintilantes e calçadas esburacadas em busca de significantes.
Olho para trás. Nunca fui singelo. Nem puro. Nem sonhador, que os sonhos sempre vieram ter comigo enquanto dormia, e sonho é coisa que não se agarra a dormir, é necessário jogo de cintura, ouvidos alertados para a transitória condição de viver. E agora, que o futuro me reserva uma marmita luciferina, reconheço o meu devir como dejá vu inseguro, com dores nas vértebras, com dores nos neurotransmissores e nos livros por ler. Cansado e acorrentado.
Das desilusões. Dos desideratos. Dos desesperos
terça-feira, 15 de junho de 2010Publicada por Unknown à(s) 16:38 0 comentários
Raiva
quarta-feira, 9 de junho de 2010Da próxima vez que alguém me disser
- "mas tu és tão bom/tens tanto valor/consegues fazer tanta coisa/ sabes tanta coisa";
- "tão novo e com um currículo tão bom?";
- "se tu não consegues, ninguém consegue";
- "podes fazer o que quiseres";
- "tem calma";
- "não te preocupes tanto";
- "há quem esteja pior";
- "a minha situação é pior que a tua";
- "não te queixes, olha que [inserir situação-limite]";
- "quem te manda tirar esses cursos?";
- "o que é que queres que te diga?";
...tenho um ataque de fúria incontrolável. Estou farto de gente que só se preocupa com os desgostos alheios para se sentir melhor à noite, quando quer dormir. Estou cansado de pessoas que fazem promessas balofas, fazem julgamentos repugnantes do alto dos seus privilégios e assumem que a sua situação é sempre mais precária que a dos outros, sem que pausem um segundo as suas vidas auto-centradas e aceitem que têm sorte e talvez não devessem queixar-se. Estou farto de absorver narrativas e ser compreensivo, quando as minhas questões, inseguranças e angústias são sempre remendadas com chavões e palavras vazias. Estou submerso num mundo de energúmenos propulsionados pela soberba que aprenderam nas suas escolas, universidades e colóquios. E é por causa disto que esta mente brilhante, este predestinado ao Nobel por inerência, esta luminária em potência que sonha com Harvard e com Ramallah, diz a toda a corja de indigentes e facínoras devoradores: foda-se, estou farto. Estou fatigado. Cansado de tanta pressão, tantos joguinhos sociais, tantas ideias falhadas, tantos discursos incrédulos e discussões inférteis. Divagações e maleitas psicológicas e depressões-ansiedades-mágoasescondidas-(inserir coordenadas aleatórias) e todos os outros desertos e nuvens e dores e sanguessugas indolentes na fila de espera para o meu cadáver dançante. Quero ser um clube de combate para todos os predadores do mundo, enquanto o meu coração não pára e satisfaz todos os que nem sequer sentirão a minha derrota e a implosão do meu carácter. Desfaço-me, todos os dias noites anos sortes em existências pardas e expressas em equações nefastas. E isto solicita-me o destino para cruzadas em que não acredito, frases sílabas declaradas anónimas e torpes. o meu cabelo cai/cái/caí/c-a-i e a extinção do meu olhar é uma reacção química micromacromeso reflectida no espelho da minha ineternidade.
Mais uma vez (só mais uma): foda-se, estou farto. Estou farto de confiar em palavras de arestas magras. Estou extinto de capacidade anímica. Estou desconstroçado em todas as moléculas de ansiedade. Estou. Estou. Sou. Dou. Leio nas caudas dos cometas o meu devir paralelo e o mundo parece-me escurecido, música tremelódica que dói no peito, não porque seja bela, mas porque é suspeita, porque é assassina, porque esteve numa esquadra representada em série televisiva de má qualidade, porque estamos todos a caminho da máquina de sonhar, que isto não anda nem para Molero, nem para Tyler Durden, nem para Pantagruel, desfaço os dedos em sangue nas teclas do comando, desfaço-me em vento a cheirar o futuro na varanda desta casa quentefriamorna sem temperatura definida e por isso tão mais definida que esbugalho a minha ética e os meus olhos perscrutam o lado obscuro do silêncio.
Tenho que fazer sentido? Tenho que escrever? Tenho que. Devo-te. Sinto-te. Arranho-te. E tudo isto é um obstaculizar imenso das certezas. E não sou um escritor adverso. E não sou um pintor magoado. E não subo escadas com um sorriso na cara, contrariado com a impressão desconfortável de uma t-shirt demasiado apertada, imagino assassínios latino-americanos, latino-asiáticos, latino-oceânicos, depois penso que sim, que sou um latino-oceânico e quero o mar, sinto o mar, mas é um patrioterismo bacoco que está prestes a reduzir-me a hemoglobina renegada, sou um ataque isquémico a pulsar nas possibilidades de veias infinitas, quero a terra viva, quero só um pedaço de vida para arar o mundo e criar um futuro novo, que o futuro velho é cinzento e estuporado, o cabrão, que me deixa ancorado na capacidade de nadar como Sísifo, como Tântalo, como mitos contemporâneos tragados pela velocidade.
Juro. Se alguém me diz aquelas sevícias, tenho um ataque de fúria. Estou farto de palavras compradas no supermercado.
Publicada por Unknown à(s) 15:31 1 comentários
is it?
sábado, 22 de maio de 2010
Maybe, if you weren't such a meaningless dot in the grander scheme of things.
And the worrisome part is that it doesn't feel good anymore.
Publicada por Unknown à(s) 18:26 0 comentários
Please rewind when finished.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Um dia destes, belo ou feio, hei-de perguntar.
Porque é que não me explicaram que a vida é uma direcção irrevogável?
25 anos e um mundo de oportunidades perdidas. A sensação angustiante da inconsequência. E a certeza de que estou a ficar para trás. De quem ou de quê? Não sei. Apenas uma inexorável sensação de perda.
Todos os dias em busca de uma pequena fresta. Ou de uma outra perspectiva. Mantendo a postura e o silêncio convenientes a quem apenas deseja certezas, a certeza de que está tudo bem, a certeza de que tudo é possível, a certeza de que podemos tudo. Mas não está, não é tudo possível e no, fundo, podemos uma pequena parcela de tudo, tão ínfima e desprezível que não nos consola, só nos incomoda, porque é uma sugestão de algo maior.
Eis que me redescubro como Sísifo. Mas um Sísifo que pode voar, ou pode continuar a vergar-se, ou pode deixar-se esmagar. E mastiga essas possibilidades.
Acordo com 75 anos e descubro que nada fiz, supondo a minha vida vivida em piloto automático.
E é uma merda.
Publicada por Unknown à(s) 10:07 0 comentários
O verdadeiro artista
quarta-feira, 12 de maio de 2010Publicada por Unknown à(s) 12:56 0 comentários
to all working class heroes
domingo, 9 de maio de 2010
As soon as you’re born they make you feel small
By giving you no time instead of it all
Till the pain is so big you feel nothing at all
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
They hurt you at home and they hit you at school
They hate you if you’re clever and they despise a fool
Till you’re so fucking crazy you can’t follow their rules
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
When they’ve tortured and scared you for twenty odd years
Then they expect you to pick a career
When you can’t really function you’re so full of fear
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
Keep you doped with religion and sex and TV
And you think you’re so clever and class less and free
But you’re still fucking peasants as far as I can see
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
There’s room at the top they are telling you still
But first you must learn how to smile as you kill
If you want to be like the folks on the hill
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
If you want to be a hero well just follow me
If you want to be a hero well just follow me
Publicada por Unknown à(s) 17:14 0 comentários